O Canto das Palavras


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sexta-feira, setembro 19

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz.
Eu nunca fui livre na minha vida inteira.
Por dentro eu sempre me persegui.
Eu me tornei intolerável para mim mesma.
Vivo numa dualidade dilacerante.
Eu tenho uma aparente liberdade
mas estou presa dentro de mim.
Eu queria uma liberdade olímpica.
Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais.
Enquanto eu tiver corpo, ele me submeterá às suas exigências.
Vejo a liberdade como uma forma de beleza
e essa beleza me falta.
Clarice Lispector

terça-feira, junho 10

Amor extremo


Por Ivan Angelo 11.06.2008

Príncipe, era o nome do cão। Mestiço, corpo forte, amarronzado, bravo com invasores, atento aos admitidos, amigo dos da casa, amoroso com o dono। O homem chama-se Fernando, seu Fernando, o Espanhol, e mora a três lombadas de morro do sítio onde costumo descansar. Ele tratava o cão como pessoa: conversava, explicava, agradecia, cobrava – tudo em bom português. Príncipe comunicava-se segundo suas limitações, e se entendiam bem.

Se acaso chegava, por exemplo, um telhadista, nome que dão lá ao especialista em telhados, o dono apresentava o cão ao profissional, explicava ao animal o que o homem viera fazer, mostrava por onde ele ia se movimentar e perguntava ao cão se estava entendido. Vizinhos contam que o cão aquiescia deitando-se.
– Impressionante. O cachorro observava sossegado o serviço do homem. O cara pegava telha, sarrafo, serrava, ia ao carro buscar pregos, voltava, subia na escada, tudo bem. Quando ele se afastou da rota autorizada, para beber água na bica do tanque, o cachorro se levantou rápido e se postou na frente dele, todo arrepiado, rosnando para atacar. Se o homem não recua, já era. O Espanhol veio de lá de dentro, dar água para ele.
O dono e o cão costumavam conversar à tarde, pôr-do-sol. Seu Fernando sentado na cadeira da varanda; Príncipe, deitado ao lado, recebia uns afagos na cabeça, nas orelhas, tapinhas no tórax, e gemia suas opiniões. Eram casos, comentários, ordens. O cachorro ouvia instruções: "Príncipe, tem gambá comendo os franguinhos, os ovos. Pode não. Dava restos da rapina para o cachorro cheirar. Um, dois, três gambás amanheceram depositados no quintal da cozinha, mortos.
– Impressionante – confirmam.
Príncipe comia como rei. Vacinas, cálcio, vitaminas, tudo em dia. Mesmo bem cuidado, ficou doente.
Começou a mancar das patas traseiras. Radiografia: nada quebrado; sangue: negativo para cinomose; plaquetas: meio alteradas. Os sintomas pioraram. Recomendaram fisioterapia especializada. Seu Fernando levava pessoalmente o cão, três vezes por semana, a outra cidade, 80 quilômetros para ir, 80 para voltar. Iam conversando. Quatro meses sem resultados. Constataram câncer no reto. Operaram. O cão foi e voltou de ambulância. Tudo aceitava com a voz tranqüilizadora do dono. A recuperação foi penosa. Seu Fernando comprou um colchão de água para o doente, instalou-o na sala da casa, aplicava injeções, fazia os curativos, limpava-o, dava-lhe água e sopinha por sonda. Passou a dormir na poltrona reclinável ao lado do paciente. A ferida cicatrizou, Príncipe parecia melhorar, levantou a cabeça, apoiou-se nas patas dianteiras. Respirava mal, e mal andou, ofegante. Diagnosticaram pneumonia. Seu Fernando mandou vir equipamento de soro e oxigênio, a sala da casa parecia uma UTI. Conseguiu vencer a infecção. Príncipe levantou-se, ainda respirava com dificuldade. Constataram câncer pulmonar. Voltou para o colchão de água, o soro, o oxigênio. Opera? Não opera? Tem chances? Mulher e filhos do seu Fernando aconselharam eutanásia, fim do sofrimento dos dois, que já durava seis meses. "Nunca!", decretou o homem. Mais dois meses de agonia, ele sofrendo sem sair de perto. Príncipe morreu abraçado pelo dono.
Nessa altura, seu Fernando já não estava bem. Não largou o corpo do amigo a noite inteira, amanheceu ali balançando-se e soluçando de vez em quando, como se ninasse um adormecido. Não largou o corpo durante a manhã e a tarde. Não queria que o enterrassem, surdo aos rogos da família e dos vizinhos, entrou naquele estado pela noite, e de manhã a Defesa Sanitária, convocada, disse-lhe que ia interditar a casa. Só assim ele concordou com o sepultamento, fez o caixão com as próprias mãos, em prantos, e pessoalmente enterrou o amigo sob a mangueira.
Passa horas lá sob a mangueira, continuando as conversas da tarde। Tirando isso, está melhorando.

e-mail: ivan@abril.com.br